quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

2EM: Produção de resumo

O texto a seguir é de tipo predominantemente argumentativo. Levando isso em consideração, resuma-o em no mínimo 12 e no máximo 15 linhas.

Lições do churrascão

A polêmica da estação Angélica parece indicar que os paulistanos se cansaram de projetos anunciados e desmentidos ao sabor das pressões de interesses  

Raquel Rolnik

Em protesto contra a reação negativa de moradores de Higienópolis, um dos bairros mais nobres de São Paulo, à construção de uma estação de metrô na Avenida Angélica, internautas marcaram através do Facebook um churrascão em frente ao Shopping Higienópolis. A polêmica estourou na web a partir do anúncio, por parte da Companhia do Metrô, de que a nova estação da Linha 6 não seria mais localizada na Angélica. Na sexta-feira pela manhã, quando o proponente decidiu cancelar o churrasco, quase 50 mil pessoas já haviam aderido ao protesto e o assunto ganhara as páginas dos jornais, com discussões técnicas sobre a localização da estação, análises sociológicas sobre o comportamento dos moradores contra e a favor da estação e declarações de representantes do Metrô procurando negar qualquer motivação que não fosse "estritamente técnica" em sua decisão.

Para além do debate sobre a melhor localização da nova estação, e até mesmo da prioridade dessa estação (e dessa linha!) em relação às gigantescas demandas de transporte coletivo de qualidade na região metropolitana de São Paulo, a polêmica dos últimos dias finalmente desnudou dois temas da maior importância para o urbanismo brasileiro, cuja discussão esteve restrita até agora a pequenos círculos acadêmicos e, com esse debate, ganha as ruas da cidade.

O primeiro tem a ver com o modelo de cidade que tem orientado o desenvolvimento de São Paulo (e das cidades brasileiras) pelo menos desde o final do séc 19: um urbanismo segundo o qual "qualidade" é sinônimo de "exclusividade". Sua produção e hegemonia na política urbana se sustentam por meio de uma coalizão de interesses econômicos com grande capacidade de influenciar as decisões políticas de investimentos e legislação na cidade.

O nascimento do bairro de Higienópolis no final do século 19, na sequência de empreendimentos semelhantes (Campos Elísios, Vila Buarque, Av. Paulista) revela este mecanismo: o abandono dos velhos sobrados de taipa no triângulo central por chateaux, chalets e cottages circundados por jardins nos novos bairros se beneficiou da construção do Viaduto do Chá, em um movimento que aliou uma reterritorialização das elites ao emergente negócio de terras — o loteamento. Foi essa a trajetória de d. Angélica, filha do Barão de Souza Queiroz, que, ao deixar de viver em sua fazenda, em 1874, fixou residência na Chácara das Palmeiras, onde mandou edificar na esquina da Angélica com a Al. Barros uma réplica do castelo de Charlottenburg, conforme planos, materiais e decoração encomendados na Alemanha.

O prestígio dessas nobres residências contribuiu indubitavelmente para o sucesso dos "loteamentos exclusivos", abertos na cidade na década de 1890. Sua localização — a Chácara do Carvalho e o Palácio de Elias Chaves nos Campos Elísios, o palacete da Vila Maria na Vila Buarque e o palacete de d. Angélica em Higienópolis — coincidia exatamente com a dos primeiros empreendimentos desse tipo. A construção do Viaduto do Chá foi fundamental para essa marcha ao sudoeste que se seguiria. Sua instalação viabilizaria os mais importantes empreendimentos imobiliários do final do século 19: Higienópolis e Paulista. Neles se envolveram proprietários de terras, investidores potenciais, engenheiros e políticos.

Na esteira de investimentos urbanos (esses bairros já eram abertos contando com rede de água, esgoto, gás e bonde, quando seus contemporâneos bairros operários Brás e Mooca, por exemplo, demoraram décadas para receber a mesma infraestrutura), uma legislação urbanística garantia a exclusividade, definindo um padrão de grandes lotes, uso exclusivamente residencial e obrigatoriedade de recuos. A verticalização do bairro de Higienópolis, que se intensificou a partir dos anos 70, mudou esse perfil, mas não desconstruiu, simbolicamente, o projeto.

A resistência que o bairro tem hoje para receber uma estação de metrô está justamente relacionada com a sua possível popularização e, consequentemente, a desvalorização imobiliária — uma postura rejeitada por muitos, inclusive moradores do próprio bairro, como bem demonstram as manifestações dos internautas, que ao rejeitá-la, afirmam o desejo de uma cidade heterogênea, multiclassista, multiétnica e multifuncional.

A direção do Metrô afirmou em nota oficial que a decisão de mudar a localização da estação se deu por razões técnicas (excessiva proximidade entre as estações Angélica e Higienópolis/Mackenzie) e não para atender à solicitação de moradores insatisfeitos. Entretanto, os anúncios (e "desanúncios") de linhas e estações, metrôs que viram monotrilhos e corredores de ônibus que aparecem e desaparecem dos "planos" do governo evidenciam um segundo ponto essencial que bloqueia o desenvolvimento de um urbanismo de qualidade para todos: o processo decisório dos investimentos da cidade.

Na ausência de um processo de planejamento estável — aliado a uma estratégia urbanística pactuada coletivamente na cidade —, os planos e projetos são anunciados e desmentidos ao sabor das pressões dos interesses que conseguem ter acesso à mesa de decisão. Aqui, mais uma vez, convergem de forma perversa coalizões de interesses econômicos enlaçados — por relações pessoais ou de classe — com interesses políticos.

O recado que a polêmica da estação Angélica parece dar é que os cidadãos paulistanos estão cada vez mais cansados desse modelo.

Raquel Rolnik é urbanista, professora da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da USP.

(extraído de: O Estado de S. Paulo, 14 maio 2011.)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

1EM: Introdução aos estudos literários

Enquanto a chuva cai

Manuel Bandeira

A chuva cai. O ar fica mole...
Indistinto... ambarino... gris...
E no monótono matiz
Da névoa enovelada bole
A folhagem como o bailar.

Torvelinhai, torrentes do ar!

Cantai, ó bátega chorosa,
As velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.

Meu coração está sedento
De tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.

Volúpia dos abandonados...
Dos sós... — ouvir a água escorrer,
Lavando o tédio dos telhados
Que se sentem envelhecer...

Ó caro ruído embalador,
Terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas, 
Para embalar a minha dor!

A chuva cai. A chuva aumenta.
Cai, benfazeja, a bom cair!
Contenta as árvores! Contenta
As sementes que vão abrir!

Eu te bendigo, água que inundas!
Ó água amiga das raízes,
Que na mudez das terras fundas
Às vezes são tão infelizes!

E eu te amo! Quer quando fustigas
Ao sopro mau dos vendavais
As grandes árvores antigas, 
Quer quando mansamente cais.

É que na tua voz selvagem,
Voz de cortante, álgida mágoa,
Aprendi na cidade a ouvir
Como um eco que vem na aragem
A estrugir, rugir e mugir,
O lamento das quedas-d'água!


Canção do amor imprevisto

Mario Quintana

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.


Antes de viajar

Eugenio Montale
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)

Antes de viajar examinam-se os horários,
as conexões, as escalas, os pernoites
e as reservas (de quarto com banheira
ou chuveiro, com uma cama ou duas ou logo de uma vez um flat);
consulta-se
o guia Hachette e os dos museus,
faz-se o câmbio, separam-se
os francos dos escudos, os rublos dos copeques,
antes de viajar informa-se
a algum amigo ou parente, controlam-se
valises e passaportes, completa-se
o enxoval, compra-se uma reserva
de lâminas de barbear, ocasionalmente
dá-se uma olhada no testamento, pura
superstição porque os desastres aéreos
em termos percentuais não são nada;
                                                antes
de viajar está-se tranquilo mas suspeita-se que
o homem sábio não se move e que o prazer
de voltar para casa custa um despropósito.
E após parte-se e tudo é O.K. e tudo
acontece da melhor maneira e é inútil
............................................................................
                                   E agora o que será
da minha viagem?
Com demasiado cuidado a preparei
sem saber nada dela. Um imprevisto
é a única esperança. Mas me dizem
que é uma bobagem dizê-lo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

3EM: Lima Barreto

Faça a leitura e o fichamento de:

VIEIRA, Keila. O social em Lima Barreto. Revista de Letras, v. 1, n. 25, 2003. Disponível em: <http://200.129.29.202/index.php/revletras/article/view/2240/1710>.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

2EM: Produção de resumo

Debaixo deste angu não tem caroço

Dias Lopes

Talvez por ressaca moral, pelo fato de termos submetido os negros da África Ocidental à brutalidade da escravidão, atribuímos a eles a gloriosa invenção da feijoada. Teriam desenvolvido a receita na senzala, aproveitando os “restos” do porco “desprezados” pela casa grande: orelha, focinho, pé, rabo e língua. Não passa de versão romântica. Os ingredientes e a técnica de preparo mostram a origem lusitana da feijoada. Para completar, os portugueses e descendentes brasileiros jamais desprezaram os miúdos suínos.

Seria também um prato generoso demais para consumo de escravos submetidos a condições tão desumanas que não mereciam sequer o direito de se prover de alimentos. Como mostra Eduardo Frieiro no livro Feijão, angu e couve (Belo Horizonte: Itatiaia, 1982), a comida que recebiam “consistia no estritamente necessário para que os ‘fôlegos vivos’ (como eram chamados) não se enfraquecessem demais ou não morressem de desnutrição, com grave prejuízo dos trabalhos que deles se exigia”.

Se houve algum prato de escravo foi o angu, uma papa ou pirão à base de farinha de milho ou então de mandioca, completamente sem sal. Surgiram ainda o de arroz e o de banana cozida. Atualmente, tende-se a considerar angu apenas o preparado com fubá. O de mandioca é chamado de pirão. Sim, esporadicamente os escravos recebiam feijão para comer, porém da pior qualidade, conforme Frieiro.

Estrangeiros que visitaram o Brasil testemunharam a pobreza e monotonia da dieta desumana dos negros. “É fazendo cozer o fubá na água, sem acrescentar sal, que se faz essa espécie de polenta grosseira que se chama angu e constitui o principal alimento dos escravos”, escreveu em 1817 o botânico e naturalista francês Augustin de Saint-Hilaire, autor de Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A palavra angu veio da África. Na língua fongbé, falada pelo povo fon (jêje no Brasil), do antigo Daomé (hoje Benin), agou designa uma papa de inhame sem tempero.

Seria lógico que a alimentação dos escravos variasse de acordo com a região do Brasil onde eles se encontravam e da atividade desempenhada, fosse em minas de ouro, engenhos de açúcar, fazendas de gado, cafezais ou serviços urbanos. Mas, segundo Luís da Câmara Cascudo em História da alimentação no Brasil (São Paulo: Global Editora, 2004), isso não acontecia: “A base era idêntica, e apenas a incidência de alguma carne ou pescado para dar gosto distinguia os regimes”.

Em Minas Gerais, o antigo prato dos escravos continua a ser feito com o fubá de granulometria fina e igualmente sem sal. Mas se converte em comida substanciosa por acompanhar tudo, em especial o frango com quiabo ou jiló, a carne ensopada e moída. Com a devida licença da tradição mineira, o angu fica mais apetitoso quando enriquecido com sal e queijo parmesão ralado. Um pouco de manteiga salgada, adicionada por cima no final, atiça a sedução. Joaquim da Costa Pinto Netto, no Caderno de comidas baianas (Salvador: Tempo Brasileiro, 1986), ensina a elaborar o prato: “Quando a água estiver a ferver, já com um pouco de sal, vai-se jogando a farinha aos poucos, ‘em forma de fio’, como se costuma dizer, mexendo sem parar”.

No Rio de Janeiro, o português Manuel Gomes lançou em 1955 um angu batizado com seu sobrenome. Logo ganhou fama. Combina fubá, linguiça e miúdos de boi. Vendido nas ruas em panelões fumegantes transportados por quarenta carrocinhas, matou a fome de operários, taxistas, prostitutas, estudantes, jornalistas, artistas e boêmios em geral. Tom Jobim era freguês do angu do Gomes. As carrocinhas saíram de circulação em 1986, mas hoje existe um endereço com o nome do prato, no Largo de São Francisco da Prainha, 17, na Saúde, que prepara a receita. Além da tradicional, o restaurante Angu do Gomes oferece as versões calabresa, carne moída, frango e vegetariana. O prato esquálido dos escravos virou torpedo nutritivo.
(O Estado de S. Paulo, 15 mar. 2012)