quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

2EM: Produção de resumo

Debaixo deste angu não tem caroço

Dias Lopes

Talvez por ressaca moral, pelo fato de termos submetido os negros da África Ocidental à brutalidade da escravidão, atribuímos a eles a gloriosa invenção da feijoada. Teriam desenvolvido a receita na senzala, aproveitando os “restos” do porco “desprezados” pela casa grande: orelha, focinho, pé, rabo e língua. Não passa de versão romântica. Os ingredientes e a técnica de preparo mostram a origem lusitana da feijoada. Para completar, os portugueses e descendentes brasileiros jamais desprezaram os miúdos suínos.

Seria também um prato generoso demais para consumo de escravos submetidos a condições tão desumanas que não mereciam sequer o direito de se prover de alimentos. Como mostra Eduardo Frieiro no livro Feijão, angu e couve (Belo Horizonte: Itatiaia, 1982), a comida que recebiam “consistia no estritamente necessário para que os ‘fôlegos vivos’ (como eram chamados) não se enfraquecessem demais ou não morressem de desnutrição, com grave prejuízo dos trabalhos que deles se exigia”.

Se houve algum prato de escravo foi o angu, uma papa ou pirão à base de farinha de milho ou então de mandioca, completamente sem sal. Surgiram ainda o de arroz e o de banana cozida. Atualmente, tende-se a considerar angu apenas o preparado com fubá. O de mandioca é chamado de pirão. Sim, esporadicamente os escravos recebiam feijão para comer, porém da pior qualidade, conforme Frieiro.

Estrangeiros que visitaram o Brasil testemunharam a pobreza e monotonia da dieta desumana dos negros. “É fazendo cozer o fubá na água, sem acrescentar sal, que se faz essa espécie de polenta grosseira que se chama angu e constitui o principal alimento dos escravos”, escreveu em 1817 o botânico e naturalista francês Augustin de Saint-Hilaire, autor de Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A palavra angu veio da África. Na língua fongbé, falada pelo povo fon (jêje no Brasil), do antigo Daomé (hoje Benin), agou designa uma papa de inhame sem tempero.

Seria lógico que a alimentação dos escravos variasse de acordo com a região do Brasil onde eles se encontravam e da atividade desempenhada, fosse em minas de ouro, engenhos de açúcar, fazendas de gado, cafezais ou serviços urbanos. Mas, segundo Luís da Câmara Cascudo em História da alimentação no Brasil (São Paulo: Global Editora, 2004), isso não acontecia: “A base era idêntica, e apenas a incidência de alguma carne ou pescado para dar gosto distinguia os regimes”.

Em Minas Gerais, o antigo prato dos escravos continua a ser feito com o fubá de granulometria fina e igualmente sem sal. Mas se converte em comida substanciosa por acompanhar tudo, em especial o frango com quiabo ou jiló, a carne ensopada e moída. Com a devida licença da tradição mineira, o angu fica mais apetitoso quando enriquecido com sal e queijo parmesão ralado. Um pouco de manteiga salgada, adicionada por cima no final, atiça a sedução. Joaquim da Costa Pinto Netto, no Caderno de comidas baianas (Salvador: Tempo Brasileiro, 1986), ensina a elaborar o prato: “Quando a água estiver a ferver, já com um pouco de sal, vai-se jogando a farinha aos poucos, ‘em forma de fio’, como se costuma dizer, mexendo sem parar”.

No Rio de Janeiro, o português Manuel Gomes lançou em 1955 um angu batizado com seu sobrenome. Logo ganhou fama. Combina fubá, linguiça e miúdos de boi. Vendido nas ruas em panelões fumegantes transportados por quarenta carrocinhas, matou a fome de operários, taxistas, prostitutas, estudantes, jornalistas, artistas e boêmios em geral. Tom Jobim era freguês do angu do Gomes. As carrocinhas saíram de circulação em 1986, mas hoje existe um endereço com o nome do prato, no Largo de São Francisco da Prainha, 17, na Saúde, que prepara a receita. Além da tradicional, o restaurante Angu do Gomes oferece as versões calabresa, carne moída, frango e vegetariana. O prato esquálido dos escravos virou torpedo nutritivo.
(O Estado de S. Paulo, 15 mar. 2012)

1EM: Introdução aos estudos literários

A repartição dos pães

Clarice Lispector


Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.

Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem – menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.

Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...

Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.

Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora, Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.

(LISPECTOR, Clarice. A repartição dos pães. In: Felicidade clandestina.
6. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 89-92.)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

2EM: Produção de resumo

Sintetize o texto a seguir em um resumo de 10 a 12 linhas.

Como morreram os dinos
Fernando Reinach

A descoberta de que um asteroide atingiu a Terra e “o mundo mudou”, proposta inicialmente em 1980, foi amplamente comprovada nos últimos 30 anos.

Mas como explicar que nós, que existimos como espécie faz somente 1 milhão de anos, somos capazes de descobrir o que ocorreu 65 milhões de anos atrás?

Os dinossauros passeavam por todo o planeta. Seus ossos são encontrados em escavações na Índia, na China, na Europa e nas três Américas. Quando os cientistas escavam rochas que correspondem a períodos recentes, não encontram ossos de dinossauros. Os ossos só aparecem quando a rocha escavada é de uma época anterior ao fim do Cretáceo, que terminou 65 milhões de anos atrás. O impressionante é que os dinossauros desapareceram simultaneamente de todos os continentes. E não foram só os dinossauros: 60% da biodiversidade desapareceu junto com eles.

Nas rochas em que encontramos os últimos dinossauros também encontramos uma camada de pedras contendo uma grande quantidade de irídio. Essa camada está depositada em todos os continentes e mesmo em poços perfurados no fundo dos oceanos. É como se tivesse chovido irídio sobre o planeta.

Mas a espessura da camada que contém o irídio não é a mesma nos diversos continentes. Na Austrália e no Japão, ela tem menos de 1 centímetro de espessura; perto de Nova York, no Caribe e no oceano ao norte das Guianas, a camada é mais grossa, de 3 a 10 cm de espessura. Nas amostras do sul do México ou do Texas, a grossura da camada dessa “chuva de pedras” é de alguns metros. Mas basta chegar à península de Yucatán e a camada acumulada é de dezenas de metros. E o que você encontra exatamente no centro da região onde a camada é mais espessa? Um imenso buraco redondo, a cratera de Chicxulub.

Ela é enorme, 200 quilômetros de diâmetro. Os geólogos acreditam que a cratera tenha se formado por causa do impacto de um meteorito de mais de 10 km de diâmetro. São as pedras e a poeira (contendo irídio) levantadas por essa colisão que choveram sobre todo o planeta. Foi o fim dos dinossauros.

Soterramento e fome. Tudo bem, dirá seu filho, mas como morreram os dinossauros, cobertos de pedras? No México, talvez eles tenham sido soterrados, mas no resto do planeta eles provavelmente morreram de fome.

A análise dos outros componentes dessa camada de irídio conta o resto da história. No fundo dos oceanos, exatamente na mesma época, a velocidade de acumulação de um composto chamado calcita caiu drasticamente. Ela é sintetizada por pequenos animais marinhos, que combinam o cálcio e o gás carbônico. Os esqueletos de calcita desses animais se acumulam ao longo de milênios, formando grandes montanhas no fundo dos mares, os recifes de corais.

A drástica diminuição na velocidade de deposição de calcita sugere que grande parte desses animais também morreu logo após o impacto do meteorito. Os corais morreram porque se alimentam de algas microscópicas e não havia algas para comerem. E essas algas deixaram de existir porque ficou impossível fazer fotossíntese, como indicado por uma grande alteração na distribuição dos isótopos de carbono nessa época.

O que os cientistas imaginam é que a poeira e os resíduos do impacto do asteroide tornaram a atmosfera opaca por décadas, bloqueando a luz solar. E, sem luz, todo o sistema de produção de alimentos, algas e plantas terrestres parou de funcionar. Sem vegetais para comer, morreram os herbívoros; sem herbívoros para devorar, morreram os carnívoros, entre eles o preferido do meu filho, o Tiranossauro Rex. Foi o fim dos dinossauros e início da expansão dos mamíferos.

Esse acidente planetário mostra quão efêmera é a vida no nosso planeta. Um dia, os dinossauros dominavam o planeta; no outro, estavam extintos. Mas também demonstra o poder de recuperação da Terra. Milhões de anos depois, uma nova leva de seres vivos se espalhou pelo planeta, e o lugar do Tiranossauro Rex foi ocupado por um predador ainda mais perigoso, o Homo sapiens.

(O Estado de S. Paulo, 1º abr. 2010)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

3EM: Pré-Modernismo :: Euclides da Cunha

Leia a seguir trechos destacados de um artigo sobre Euclides da Cunha e Os sertões e, em seguida, identifique conexões entre as ideias desses trechos e as duas passagens de Os sertões reproduzidas na sequência.

CRÍTICA

[...] Sabe-se que a visão de mundo do homem que chegou no alto-sertão da Bahia, com a incumbência de noticiar para um periódico sulista os derradeiros momentos do massacre dos sertanejos de Antonio Conselheiro, estava profundamente mergulhada nos pressupostos e preconceitos advindos do credo cientificista, isto é: evolucionismo, determinismos climático e biológico e, de uma forma mais geral, do positivismo. Por esse caminho, o conceito de sertão era compreendido da forma mais pejorativa possível, desqualificando a terra e a humanidade a ela relacionada, reconhecendo neles a impossibilidade de qualquer desenvolvimento rumo à civilização. Euclides, como boa parte dos intelectuais contemporâneos, compartilhava destas ferramentas mentais que possibilitavam uma maior compreensão da realidade do País. O sertão era percebido como território da barbárie, tal como o conceberam, na primeira metade do século, a elite imperial e o olhar estrangeiro, marcadamente ilustrado. A ideia de sertão sintetizava a representação do outro indesejado e distante, símbolo daquilo que não se poderia conceber como nacional. [...]

Todavia, a opção pelo sertão, convivendo com a crença na civilização e no progresso, tornava a consciência do homem angustiada e sombria, e projetava reflexões que não poderiam deixar de expressar tais tensões. [...]

Sem sombra de dúvida, ecoava nesse momento no pensamento de Euclides um clima de devoção à nação republicana, lutando contra a monstruosa ameaça do núcleo monarquista dos fanáticos sertanejos. Sabe-se, porém, que a imagem de Canudos, esse monstro terrível foi na verdade uma construção feita e alardeada através da imprensa das capitais litorâneas, principalmente a partir da pregação dos devotos jacobinos. Raoul Girardet expôs perfeitamente o poder das mitologias políticas que atuam no plano do alarde conspiratório, em que imagens e informações são construídas e manipuladas por grupos interessados no controle do imaginário. O arraial do Conselheiro seria a tradução da barbárie, a perfeita encarnação do mal. Neste sentido, o pensamento de Euclides se alinha com a ideia de sertão que se tinha naquele momento ao nível do senso comum. Daí, portanto, a importância de Euclides da Cunha, pois seu livro é, acima de tudo, profundo exame de consciência, não só individual, mas possivelmente coletiva. [...]

Nos três pontos em que a narrativa do livro está encadeada, percebemos tacitamente as construções imaginárias, inicialmente de uma espacialidade nacional, em seguida o estabelecimento de um tipo étnico que encarnasse a nação, o sertanejo, e enfim, no momento da luta, o conflito mais grave que é o reconhecimento de que, grosso modo, a República, elemento que até então simbolizava de alguma maneira a ideia de nacionalidade, na cabeça do jornalista Euclides da Cunha presente no ocaso da tragédia, acabou sendo o algoz dos que são os primevos e essenciais brasileiros. [...]

O certo é o seguinte: se pelo caminho da ciência do século XIX, Os Sertões encontra-se preso às amarras de uma visão de mundo marcada por avaliações negativas sobre a terra e o homem do Brasil, pelo caminho do simbolismo mítico, com um substrato essencialmente romântico mesmo não declarado, mas parte integrante do imaginário de sua geração, ele supera os preconceitos e institui novas interpretações às teorias cientificistas vulgarizadas na época. O sertanejo é forte porque conjuga na sua constituição histórica alguns fatores singulares: a reação ao meio arredio, a purificação existencial, resultado do martírio secular da terra e do isolamento de sua formação sócio-histórica e, o mais importante de tudo, encarna, de certa forma, como fruto de uma concepção romântica presente no livro, o estereótipo do bom selvagem rousseauniano. Os Sertões, mais do que um livro em si, é o melhor exemplo da consciência partida de uma geração na busca de sua identidade de povo e nação. Se em 1897 Euclides da Cunha chegou ao arraial de Canudos como mais um repórter, preso às visões civilizadas do litoral sobre o sertão, o confronto com a trágica realidade dilacerou internamente o escritor, transformando o livro em um manifesto a favor da memória dos heróicos seguidores do Conselheiro, afirmando a existência de uma brasilidade sertaneja, como algo essencial à formação histórica do Brasil. [...]

Euclides foi alguém que depositou todas as suas esperanças na razão e na ciência do século de Marx, Comte, Darwin e Spencer; e quis, com estas certezas, interceder e transformar a realidade do País, fazendo com que trilhasse o rumo do progresso e da civilização. Mas sabemos que seus sonhos e esperanças mais concretas se evaporaram como água em pleno ar. Para ele conviver com o fardo dessa derrota na consciência foi algo extremamente dramático. O grande filósofo e historiador das religiões Mircea Eliade, numa passagem extremamente feliz, afirmou que “um homem exclusivamente racional é uma abstração; jamais o encontramos na realidade”, pois a experiência humana está mergulhada num universo de sonhos, mistérios e simbolismos onde a fronteira entre o racional e o irracional pode ser muito mais tênue do que pensa a filosofia ocidental. De certa maneira, cabe a menção à crítica filosófica que Albert Camus fez à ciência moderna em Le Mythe de Sisyphe, onde diz que “toda ciência desta terra não me dará nada que possa assegurar-me que este mundo é meu”. Euclides da Cunha, a quem devemos celebrar sempre pela obra e pelo exemplo de empenho em encontrar soluções que conduzam a um país melhor, à sua maneira vivenciou intensamente o significado trágico desta sentença.

A angústia com sua vida e seu país tomavam conta da mente do escritor, e o homem só via tristeza nas situações que o cercavam. O casamento infeliz, a insatisfação com a profissão e as constantes dificuldades financeiras que, não poucas vezes, o forçavam a trabalhar a contragosto, tornavam para ele a vida um grande martírio. O sertão, o interior, o coração das terras — onde há calma, repouso e paz para o espírito — surgia à sua imaginação como a única possibilidade de felicidade e superação da condição de simples mortal. A nação que não era agravada em sua consciência de ex-mosqueteiro, o sentimento de derrota — que não foi só seu, diga-se de passagem, foi de toda uma geração. Mas ele, muito mais que qualquer outro, exilado na solidão de si mesmo, não teve outra saída senão sonhar com uma salvação, individual e, por vezes, coletiva, a esperá-lo lá onde o Brasil é profundo, nalguma vereda deste grande sertão.

(extraído de: OLIVEIRA, Ricardo de. Euclides da Cunha, Os Sertões e a invenção de um Brasil profundo. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 22, n. 44, p. 511-537, 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882002000200012&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 10 Fev. 2017)


TRECHOS DE OS SERTÕES

Abramos um parêntese...

A mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas da inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso. O indo-europeu, o negro e o brasílio-guarani ou o tapuia, exprimem estádios evolutivos que se fronteiam, e o cruzamento, sobre obliterar as qualidades preeminentes do primeiro, é um estimulante à revivescência dos atributos primitivos dos últimos. De sorte que o mestiço — traço de união entre as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares — é, quase sempre, um desequilibrado. Foville compara-os, de um modo geral, aos histéricos. Mas o desequilíbrio nervoso, em tal caso, é incurável: não há terapêutica para este embater de tendências antagonistas, de raças repentinamente aproximadas, fundidas num organismo isolado. Não se compreende que após divergirem extremadamente, através de largos períodos entre os quais a história é um momento, possam dous ou três povos convergir, de súbito, combinando constituições mentais diversas, anulando em pouco tempo distinções resultantes de um lento trabalho seletivo. Como nas somas algébricas, as qualidades dos elementos que se justapõem não se acrescentam, subtraem-se ou destroem-se segundo os caracteres positivos e negativos em presença. E o mestiço — mulato, mamaluco ou cafuz — menos que um intermediário, é um decaído, sem a energia física dos ascendentes selvagens, sem a altitude intelectual dos ancestrais superiores. Contrastando com a fecundidade que acaso possua, ele revela casos de hibridez moral extraordinários: espíritos fulgurantes, às vezes, mas frágeis, irrequietos, inconstantes, deslumbrando um momento e extinguindo-se prestes, feridos pela fatalidade das leis biológicas, chumbados ao plano inferior da raça menos favorecida. Impotente para formar qualquer solidariedade entre as gerações opostas, de que resulta, reflete-lhes os vários aspectos predominantes num jogo permanente de antíteses. E quando avulta — não são raros os casos — capaz das grandes generalizações ou de associar as mais complexas relações abstratas, todo esse vigor mental repousa (salvante os casos excepcionais cujo destaque justifica o conceito) sobre uma moralidade rudimentar, em que se pressente o automatismo impulsivo das raças inferiores.

(extraído de: CUNHA, Euclides da.; GALVÃO, Walnice Nogueira. Os sertões: edição crítica. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 174-175)

A entrada dos prisioneiros foi comovedora. Vinha solene, na frente, o Beatinho, teso o torso desfibrado, olhos presos no chão, e com o passo cadente e tardo exercitado desde muito nas lentas procissões que compartira. O longo cajado oscilava-lhe à mão direita, isocronamente, feito enorme batuta, compassando a marcha verdadeiramente fúnebre. A um de fundo, a fila extensa, tracejando ondulada curva pelo pendor da colina, seguia na direção do acampamento, passando ao lado do quartel da primeira coluna e acumulando-se, cem metros adiante, em repugnante congérie de corpos repulsivos em andrajos.

Os combatentes contemplavam-nos entristecidos. Surpreendiam-se; comoviam-se. O arraial in extremis, punha-lhes adiante, naquele armistício transitório, uma legião desarmada, mutilada, faminta e claudicante, num assalto mais duro que o das trincheiras em fogo. Custava-lhes admitir que toda aquela gente inútil e frágil saísse tão numerosa ainda dos casebres bombardeados durante três meses. Contemplando-lhes os rostos baços, os arcabouços esmirrados e sujos, cujos molambos em tiras não encobriam lanhos, escaras e escalavros — a vitória tão longamente apetecida decaía de súbito. Repugnava aquele triunfo. Envergonhava. Era, com efeito, contraproducente compensação a tão luxuosos gastos de combates, de reveses e de milhares de vidas, o apresamento daquela caqueirada humana — do mesmo passo angulhenta e sinistra, entre trágica e imunda, passando-lhes pelos olhos, num longo enxurro de carcaças e molambos.

Nem um rosto viril, nem um braço capaz de suspender uma arma, nem um peito resfolegante de campeador domado: mulheres, sem-número de mulheres, velhas espectrais, moças envelhecidas, velhas e moças indistintas na mesma fealdade, escaveiradas e sujas, filhos escanchados nos quadris desnalgados, filhos encarapitados às costas, filhos suspensos aos peitos murchos, filhos afastados pelos braços, passando; crianças, sem-número de crianças; velhos, sem-número de velhos; raros homens, enfermos opilados, faces túmidas e mortas, de cera, bustos dobrados, andar cambaleante.

(extraído de: CUNHA, Euclides da.; GALVÃO, Walnice Nogueira. Os sertões: edição crítica. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 566)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

2EM: Texto para exercício com substantivos

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;
Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros;
Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.
Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela?
Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano?
Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora.
Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:
— Iracema!
O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infortúnio.
Nesse momento o lábio arranca d'alma um agro sorriso.
Que deixara ele na terra do exílio?
Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.
Refresca o vento.
O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas e desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade dos mares, e a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo.
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie a bonança mares de leite!
Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.
(ALENCAR, José. Iracema. cap. I)

quinta-feira, 31 de março de 2016

2EM: Texto enciclopédico

Atividade individual de produção de texto, para avaliação dos seguintes objetivos de aprendizagem:

[Obj.03]: Planejar, produzir, revisar, avaliar e editar textos, levando em conta o gênero e seu contexto de produção, estruturando-os de maneira a garantir a relevância das partes em relação ao tema e aos propósitos do texto. [8,0 pontos]

[Obj.05]: Escrever de modo correto palavras de uso frequente, inclusive no que diz respeito à acentuação. [2,0 pontos]

Elabore um verbete para enciclopédia intitulado Sistema de avaliação do Colégio Notre Dame.

Retome as características de estrutura e linguagem desse gênero textual no livro de Produção de Texto, Módulo 5, capítulos 1 e 2.

Produza o texto em Word e, ao considerá-lo finalizado, cole-o como comentário a esta postagem do blog. Na primeira linha do comentário, identifique-se, informando seu prenome e número.

O texto deve ter de 1.500 a 2.500 caracteres (cerca de uma página do Word, se usado corpo 12 e espaço entre linhas 1,5).

Prazo: quinta-feira, 31/3/2016, 16h20.

quinta-feira, 10 de março de 2016

2EM: Resumo

Ombudsgirl

Roseli Fischmann

Isadora Faber, de 13 anos, aluna de escola pública de Florianópolis, ao criar o Diário de Classe no Facebook trouxe oportunidade de aprofundamento ao debate sobre a qualidade da educação. Usualmente restrito, na mídia, a resultados de Saeb, Prova Brasil, Ideb, indicadores quantitativos que se tornaram familiares a todos, a jovem apontou o papel do desenvolvimento crítico na sua formação como componente dessa qualidade.

Permite, assim, a análise de direitos entrelaçados ao direito à educação. Por exemplo, o direito à liberdade de consciência e o direito à liberdade de expressão. Se para os professores o tema da liberdade de cátedra é incontestável como espaço da liberdade de expressão docente, para os estudantes o tema, embora crucial, não é simples. E o caso de Isadora é exemplar.

O direito à liberdade de consciência implica o direito à formação dessa consciência. Ou seja, é preciso nutrir à consciência, que não se faz sozinha, do nada. Para os que têm oportunidade de estar junto a crianças e jovens, o perigo é a atração pela facilidade de doutrinar, que não guarda nenhuma relação com alimentar consciências, mas com o abandono da ética e das possibilidades democráticas.

A história dos autoritarismos vividos no Brasil, apoiados por processos de doutrinação na escola e na propaganda pública (como o DIP de Getúlio Vargas), marcou a mentalidade da sociedade e deixou uma herança pesada para a escola, que não está lavrada em papel, mas nem por isso é menos atuante.

Se as condições materiais de trabalho nas escolas públicas muitas vezes deixam tanto a desejar, como Isadora deixou às claras, afetando a atuação de cada docente, as marcas do passado também dificultam que seja melhor o trabalho educativo. Observe-se a primeira reação da escola, a de chamar os pais de Isadora para sinalizar os riscos de que a menina continuasse com seu Diário de Classe. Calada e omissa, seria acolhida. Crítica, inconformada e informando o público, era vista como ameaça e, portanto, naquela ótica, merecendo a resposta da retaliação, além de destiná-la, o quanto possível, ao ostracismo no interior da instituição.

Se, por um lado, no Brasil, é crônica a falta de prática de prestar contas do que se faz com o bem público, com transparência, (a mal traduzida accountability), por outro o quadro está mudando. A criação da Comissão da Verdade, ou as transmissões de julgamentos do STF, como o agora em andamento, sinalizam que, à imperiosa necessidade republicana de transparência e correção para os atos públicos, soma-se o direito da sociedade de ser informada de maneira adequada, em tempo real, na sua relação com o Estado. A educação pública é fundada na escola pública, mas vai além, porque é continuada e para toda a vida. Cada um que pode testemunhar a forma como sofrerão consequências os que agiram à margem da lei, desrespeitando o bem público e violaram direitos, recria-se como cidadão em sua cidadania, ao ver a história do País sendo redirecionada pela via da Justiça, do Estado em processo de reflexão e reconstrução. A prática efetiva da Justiça é educativa.

A consciência de Isadora, ao afirmar que a escola pública é paga, sim, pelos que a utilizam, por meio de impostos, sabendo que deve, por isso, cobrar dos governantes, é alvissareira, indicando novos tempos. As redes sociais e, de modo mais amplo, a popularização da internet, trazem novos elementos com os quais a escola ainda não sabe lidar, chegando mesmo a sentir-se frente a dilemas cada vez que surge algo inusitado.

A divulgação de casos dramáticos em que a rede foi usada para fins de violação de direitos de crianças e adolescentes vê-se substituída pela possibilidade do uso construtivo de tão relevante ferramenta. São ainda incipientes as pesquisas a respeito desse importante fenômeno contemporâneo, em especial na forma como atinge crianças e jovens. No caso de Isadora, demonstra um potencial rico, de formação de consciência para muitos e de exercício de liberdade de expressão que não poderia transformar-se, por seu mérito, em ocasião de represália violadora de seus direitos.

A prática de levar a público sua opinião e expor-se, enquanto expõe a realidade escolar em que vive, significa não apenas o exercício e a busca de solução, mas ao mesmo tempo, pela dimensão da publicidade, um paradoxal risco seguro. Porque quantos mais tomaram conhecimento de seu Diário, mais protegida Isadora ficou de que lhe infligissem qualquer arbitrariedade. Habilmente a Secretaria de Educação entrou em campo, amparando a escola e sua diretora, procurando mediar o alegado "dano à imagem" da escola, que nada mais era que a expressão efetiva do que ali se passava. A comparação a um tipo de "ouvidoria", proposta pela secretaria, indica abordagem mais adequada que protege a escola, mas não garante o cotidiano da menina, cujos méritos são tão notáveis quanto o apoio que seus pais lhe deram, mas que pede ainda proteção. Para demonstrar que efetivamente encara Isadora como ouvidora, já que ouvidores ou "ombudsmen" sempre têm garantias em relação ao que fazem e a sua segurança pessoal, a secretaria precisa apoiá-la e valorizá-la. Isadora - felizmente - tem a palavra. Ficamos à espera. 

(FISCHMANN, Roseli. Ombudsgirl. O Estado de S. Paulo, 2 set. 2012)